quinta-feira, 25 de junho de 2020

Esvair


Mini conto escrito por Luiz Penna
Ela abre o jornal e lê o horóscopo do dia. “Nada… Como sempre os mesmos truques de linguagem”, pensa. O dia está bonito. Abre os braços e espreguiça com vontade todo o seu corpo. Mas por dentro sente o desejo de desaparecer, de se transformar, de deixar de ouvir as traumáticas vozes assustadas do mundo.

Uma borboleta dança assimetricamente próxima a sua cabeça. Ela brinca, ri, começa a cantar uma canção que aprendeu com a sua avó. O telefone toca. Era uma amiga convidando para uma xícara de chá. “Hoje não posso. Estou aqui num exercício abstrato de não ser alguém, parar de rolar pela existência ao acaso. Quero esvair no espaço como uma fumaça”, diz com uma voz doce e calma enquanto observa uma formiga subindo no dedão do seu pé direito.


Uma profecia amarga: O fim da escrita!




Recentemente uma pessoa me disse: "A tendência no futuro, em escala global, será o fim das palavras escritas. A imagem ganhará espaço definitivo."
Ou seja, na sua avaliação, todos focarão seus interesses em filmes, em séries e em postagens nas redes sociais (Youtube, Instagram, Facebook), e deixarão a escrita de vez. Obviamente, discordei de sua trágico prenúncio, e argumentei que existe uma nova geração que consume e-books e livros, e haverá mais gente lendo nas próximas décadas do século 21, mas fiquei a imaginar o que o nosso querido Ariano Suassuna (1927-2014) falaria sobre esta amarga profecia. Na certa, ele soltaria uma gargalhada. Afinal de contas, as palavras escritas são tão necessárias, como o ar que respiramos. Sem os livros/e-books, nos tornamos seres menores. As imagens tem suas representações simbólicas, como falava o semiólogo Umberto Eco (1932-2016), mas na evolução da sinapse e da nossa própria espiritualidade, as palavras tornam-se elementos fundamentais para a nossa saúde; do contrário, a nossa alma seca rápido, e o corpo começa a definhar. Neste momento de Pandemia, causada pelo Covid-19, muitos jovens começaram a ter contato com a literatura. Seja clássica, temas filosóficos, assuntos relacionados com ficção científica e outras questões. Talvez, o mercado de livros físicos diminua, e o meio ambiente agradecerá por isso. Porém, pelo que vejo, e o acesso de pessoas que procuram os meus e-books em várias plataformas na internet (Amazon, Clube de Livros, Google Books, Lojas Americanas, Casas Bahia e Livrarias Online), estamos vivendo uma nova revolução de costumes e hábitos culturais. Só quem não enxerga, são aqueles que envelhecem antes da hora. #livros #literatura #cultura #romance #ficção

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Os Algoritmos da Caixa de Pandora




O italiano Umberto Eco (1932-2016) dizia que as teorias das conspirações permearia, com abundância, o imaginário coletivo das novas gerações do século XXI, com a criação de realidades paralelas e fragmentadas. Será que o escritor de muitos livros, entre eles "O Nome da Rosa", está certo?
Durante a sua existência o simiólogo foi um assíduo combatente do fascismo. Entretanto, ele tinha uma leitura profunda sobre o que acontecia à sua volta, principalmente no território italiano.
Mas, mesmo envolto no seu habitat natural, Eco era um intelectual universal. Nos seus artigos, e até mesmo nos seus romances, as suas reflexões se articulam sobre um cenário planetário inverso ao das formulações do liberalismo clássico e do neoliberalismo.
O liberalismo clássico surgiu no século XVIII para ser, em tese, o condutor de uma economia compromissada com o progresso e o bem estar do povo, envolto num raciocínio iluminista de paz e prosperidade, pensados por Adam Smith (1723-1790) e John Locke (1632-1704), com as liberdades individuais respeitadas, porém, na prática, essa é uma teoria contraditória, poucas pessoas se beneficiaram com esse sistema. E há muitos fatos que comprovam esta história.
Já o neoliberalismo implementado no século XX, depois da Segunda Guerra Mundial, tentou colocar a economia nos trilhos, com uma releitura "romantizada" no passado, apoiando-se nas proposições da mínima interversão do estado na economia, orientadas por Milton Friedman (1912-2006). Uma ideia que também não obteve grandes resultados. O que se viu foi recrudescimento da exclusão e pouco investimento no potencial das pessoas.
Ao longo das décadas de 80, de 90 e início de 2000, todo o processo econômico planetário começa a fraquejar, com excessos de planos econômicos bizarros. Um deles foi a entrada de tecnocratas, uma espécie de CEO (Diretor Executivo) de vários governos europeus, com projetos voltados para a eficiência estatal, como se o estado fosse uma empresa privada. Resultado: os lobismo aumentou, e favoreceu as grandes corporações. Por sua vez, o povo ficou entregue à própria sorte.
Ao invés de estimular a inclusão, o fortalecimento econômico das pessoas, houve uma derrocada, com o aumento de milhões de desempregados, conflitos étnicos, corrupção de partidos de esquerda e de direita. E, obviamente, a maioria da população, nada satisfeita com isso, se sentiu traída pelos seus representantes. Na primeira década do século XXI, ódios e rancores ganhariam corpo e voz nas principais capitais do mundo. Todos queriam mudanças. Os panfletos eram enviados, através de celulares, para uma nova tribo que se inspirava em discursos autoritários.
No seu livro "Baudolino", lançado em 2000, Umberto Eco traz nas entrelinhas alguns elementos que provocam a nossa imaginação, tendo como pano de fundo os mitos, as aventuras e as explorações geográficas, com fortes enredos religiosos e políticos, quando cita o terror produzido pelos hunos brancos que avançam sobre as cidadelas e povoados, e eliminam todos o que encontram pela frente. É uma carnificina sangrenta. Seria os hunos brancos os novos donos dos algoritmos? Sedentos por mudanças? Mas, quais mudanças seriam estas?
Segundo o italiano Giuliano Da Empoli, que escreveu "Os engenheiros do caos: Como as fake news, as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições", entramos numa fase civilizatória onde as ideologias passadas, não tem vez para esse grupo que comanda os algoritmos. Para essa turma, existe no presente um enredo filosófico diferente, voltado para uma tecnologia amparada por saberes mais específicos nas áreas da política, da educação, da cultura, da história e de outros temas.
Mas há algum gerenciador por traz disso? E onde ele se localiza? O produtor desta narrativa se chama Movimento 5 Estrelas. Ele tem residência na Itália onde fica a sede desta "Babilônia" pós-moderna, que abriu a "Caixa de Pandora", colocando a geopolítica ao avesso, com uma multidão entrincheirada nas principais plataformas da internet, em violentas discussões sem sentido, num lugar onde ninguém se entende. Mas o projeto de manipulação é esse.
Ao redesenhar a linguagem no Facebook, no Youtube e no Whatsapp, os romanos sob a coordenação de Davide Casaleggio, empresário e político italiano, que seguiu os passos do pai Gianroberto Casaleggio (1954-2016) co-fundador e presidente da Casaleggio Associati srl, uma empresa de publicação na internet, que presta consultoria em estratégias de rede e edita o blog de Beppe Grillo, se tornar o gestor de milhões avatares espalhados pelo mundo. Foi através dele que Bosonaro e Trump ganharam vida.
No mundo atual, principalmente com últimas experiências aplicadas pelos algarítmicos na Itália, na França, nos Estados Unidos, no Brasil e em outros países, a tendência é que os hunos brancos ganhem mais força, através de uma grande teia invisível de controle.
Estamos num mundo da desterritorialização do ser. Quaisquer investidas punitivas por parte do judiciário, de comissões de deputados e senadores, para apurar as origens e produção de fake news, são completamente sem sentido.
Será que a realidade se tornará mais sonâmbula, e se anulará nas incongruências de um tempo preso nas teias construídas pelos novos donos dos algorítimos? Ou, para a nossa felicidade doméstica, isso não passa de uma teoria conspiratória?
Creio que não! Acredito que os hunos existem e eles se tornam cada vez mais fortes, e não conseguimos compreender o quanto de inteligência há por traz disso, e quem mais está envolvido nesta história.

domingo, 10 de maio de 2020

Trator mata restinga de Arraial do Cabo


Tudo em nome do "progresso". Restinga de Monte Alto agoniza. Sistemas de vidas destruídos, cognições de teias existenciais desativadas, aves que perderam ninhos, comunidades de besouros massacradas, cigarras assassinadas e muitas árvores frutíferas jogadas ao chão. Um verdadeiro genocídio ecológico.
Será que a pandemia não abriu os olhos das pessoas? O argumento, dos ditos "empreendedores" imobiliários, é que seguem a liberação dada pelo Instituto Estadual do Ambiente - INEA.
Será que os inteligentinhos governamentais, que recebem seus salários pagos pelo povo, não sabem que a restinga é um ecossistema complexo, com plantas medicinais e alimentar?
Mas, este atraso, este vírus da destruição, tem suas raízes quando os portugueses, com as bênçãos do rei de Portugal Dom Manoel (que lembra o INEA), aqui chegaram e eliminaram um vasto território de biodiversidade para explorar o Pau Brasil.
A situação foi só piorando. E a devastação ambiental aumentou, somando com isso o genocídio de centenas de milhares de índios. Em seguida veio a produção do sal, e o raciocínio predador da construção civil.
E o processo continua. A sede por lucros imobiliários é a ruína de todo um sistema vivo de plantas e animais. E os gestores municipais não fazem absolutamente nada.
Brincam, como se estivessem num jardim de infância, com temas ambientais, e não estabelecem politicas públicas responsáveis.
O Jardim Botânico tem um estudo profundo do valor da restinga, tanto nos procedimentos de geração de renda, como o da segurança alimentar.
Estamos no século 21 e até hoje não se criou uma pedagogia ambiental eficaz. As futuras gerações vão viver de quê?
A situação é crítica e todas as instâncias do poder, não abrem um leque de discussão mais profunda, sobre a importância da biodiversidade em nossas vidas.
História, economia, valor ambiental e beleza natural estão presentes em um banco de areia. A restinga está ameaçada pela falta de preservação e pela ausência de um turismo preservacionista.
E o mais grave, o seu conhecimento oral produzido pelos mestres sabedores, estão morrendo com a mudança de hábitos das novas gerações.
Ao que parece, os donos do capital continuarão cegos e tolos. Lá na frente, se a situação piorar, Não Haverá País Nenhum, como bem descreve
Ignácio de Loyola Brandão no seu livro escrito em 1981.
Precisamos nos alimentar de um minimalismo inteligente. E Arraial do Cabo retrocede e dá um péssimo exemplo para o mundo.

Imagem: Luiz Penna


sexta-feira, 13 de setembro de 2019

A ignorância vendida por Olavo de Carvalho







A soberba doentia de Olavo de Carvalho é um fato. Vejo nela a expressão da ruína de um século menor, sem a exatidão e leveza apresentada pelo cubano Ítalo Calvino, no seu livro "Seis Propostas para o Próximo Milênio".
Para ser sincero, eu sinto falta das relevantes opiniões do argentino Jorge Luís Borges que, além de ter construído uma obra fenomenal, tinha uma lista de citações de mentalidades poderosas que ainda colaboram na evolução de nossa espécie.
No campo das discussões Olavo de Carvalho tem intervenções medíocres. As suas citações bibliográficas, a sua falácia mentirosa e, principalmente, a sua idiotice política são resultados de uma completa cegueira sobre a nossa condição humana na Terra, assunto bem explicado pelo alemão Thomas Mann, no livro Montanha Mágica.
O falso filósofo foi absorvido por uma turma mentalmente infantil; são órfãos de uma nação fragmentada. Eu prefiro a dialética dos chilenos Francisco Varela e Humberto Maturana que, sem nenhuma dúvida, são intelectualmente consistentes. Olavo usa jargões esquisitos e, acima de tudo, erra nas suas formulações.
Os estudos, as rasas pesquisas, apresentadas por ele provocam enganos históricos e filosóficos. Se estivesse vivo, o alexandrino Eric Hobsbawm teria crises de desespero ao ver as manifestações desse desbocado Chacrinha de uma pós modernidade aflita.
O que diria Umberto Eco, se também estivesse entre nós? Talvez o "ilustre" enganador brasileiro, serviria de objeto de estudos semióticos para o professor italiano.
E o que pensaria o escritor brasileiro Moacir Scliar ao ver as inutilidades e prepotência de um demente corpo em decomposição? Decerto Scliar, o mestre das histórias curtas, criaria uma narrativa sobre os tormentos de um homem repleto de afetações mentais, principalmente quando o assunto é sexo.
É visível como o corpo de Olavo se contorce e a sua voz fica trêmula quando tenta esmiuçar sobre o tema da sexualidade. Será que o "ávido" ideólogo do atual governo, não leu o francês Marquês de Sade, o inglês D.H Lawrence, o japonês Yukio Michima ou o anjo pornográfico Nelson Rodrigues? Se tivesse lido não cometeria falhas nas suas reflexões sexuais.
Enfim, no quesito sexologia, Carvalho decepciona. No mais, sinto que esse senhor se transformará numa das maiores figuras folclóricas do Brasil. O americano William Burroughs deve está rindo desse louco, desse jagunço de palavras vazias, surreais, que tem a insanidade de dizer que Theodor Adorno produziu as letras dos Beatles.
Qualquer dia, o sem noção da cultura pop, vai afirmar que quem escreveu as canções de Oasis e do The Verve foi o escritor americano Philip Roth.
Outro erro feio do velho bruxo é quando ele cita a Escola de Frankfurt, como sendo um centro de diabólicos movimentos criados por uma dialética negativa (sic) que gira em torno das ideias de Adorno, contra tudo e contra todos.
O velho bruxo, o rasputin brasileiro, deveria saber que na Escola de Frankfurt, o alemão Jurgen Habermas desconstruiu a Dialética do esclarecimento de Adorno.
Influenciado pelo austríaco matemático e filósofo Ludwig Wittgenstein e Karl-Otto Apel, Habermas cria a base de novos projetos sócio-políticos de emancipação. Abre espaço para novas discussões sobre diversos temas das humanidades. E Carvalho parece desconhecer este fato.
Aliás, Olavo no seu íntimo sabe que as suas análises não levarão seus discípulos a lugar nenhum na superfície terrestre e, sim, valendo-se de um raciocínio metafísico, provocará um deslocamento de todos eles para os círculos infernais descritos por Dante Alighieri, na sua magistral Divina Comédia, onde reina a ignorância.
No fundo, Carvalho compreende que comete auto engano constante, mas seu desajuste mental lhe dá forças para prosseguir, como se fosse o baluarte da justiça e da verdade. Carvalho é a síntese, um exemplo, de um "projeto" civilizatório que deu errado.
Ele, certamente, seria um personagem coadjuvante da obra de Robert Musil. Um falastrão, sem conteúdo autêntico, como diria Arthur Shopenhauer.
As suas repetições teóricas, embasadas em processos conspiratórios, podem ser bem analisadas na obra de Gilles Deleuze, no seu livro Diferença e Repetição. Suas exposições de ideias no cotidiano se repetem, e parecem se ajustar a um estudo profundo de substratos do pensamento analítico.
Obviamente, Carvalho faz uso de uma retórica de persuasão. E como no Brasil o rito de passagem é uma anomalia cultural, pela ausência de uma educação profunda, o falso filósofo faz uso dessa deficiência para formatar dialéticas sem sustentação real.

Pós-pandemia: um futuro de humanos/máquinas

  Francis Bacon.  Figura com carne O  início desta década de 20 está marcado pela complexidade da dissensão ontológica. Isto é bom ou ruim?...